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Serra Grande

Raízes de Fé: a relevância da Igreja de Nossa Senhora da Conceição para Uruçuca

Há cidades que guardam sua memória em arquivos. Outras a preservam na voz de quem viu o tempo passar. Em Uruçuca, a história da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição atravessa gerações pelas lembranças de Neyde Margarida Cardoso do Rosário, professora, primeira mulher eleita vereadora do município e testemunha de um período em que fé, cacau e comunidade moldavam o cotidiano da cidade. 

 

Aos 90 anos, ela fala como quem percorre ruas antigas que ainda permanecem vivas dentro dela. “Uruçuca era como uma fazenda, com plantações de cacau. Aos poucos, foi se desenvolvendo. A praça possuía jardins, árvores e flores. O centro da cidade tinha um calçamento mais rústico. Depois, foi substituído por paralelepípedos. As casas eram bonitas, com passeios. Era um centro histórico. O cacau e o café eram os pilares da economia. Atualmente, a cultura do café não existe mais”, salientando que o rio que dava nome a Uruçuca, então chamado de ‘Água Preta’, apresentava águas escuras, mas limpas, apesar da aparência: “Com o crescimento urbano, acabou se degradando e se tornando esgoto”, suspira. 

 

O passado que descreve tinha diversas opções de lazer. Havia bandas de música. Filarmônicas. E as pessoas organizavam as festividades. “O povo era animado, formavam blocos de carnaval. Os festejos juninos eram muito bons. Havia a celebração em honra a Santo Antônio nas casas. Muita gente rezava e cada um queria fazer a festa melhor que o outro. Rezava para São João também nas casas, e para São Pedro. Depois, quando chegava o dia deles, havia os comes e bebes. O povo cantava e dançava. Eu, por exemplo, gostava muito de escrever, criar versos e de cantar. Tinha uma voz excelente, que permitia ser ouvida”, rememora ela, que inclusive iniciou os estudos de violão, mas, devido à rotina e à falta de tempo para praticar, acabou interrompendo.

 

Neyde também recorda que a feira ia muito além da simples comercialização de mercadorias. Era, sobretudo, um ponto de encontro da comunidade, onde o cotidiano ganhava outra cadência e as relações se estreitavam entre cheiros, sabores e conversas que se cruzavam pelos corredores das barracas. Ali, o comércio se confundia com a vida social: cada produto exposto carregava não apenas valor de venda, mas também a marca do trabalho, da tradição e da identidade de quem o produzia: “Ir à feira era motivo de festa. Tinha de tudo: frutas, carnes, peixes, galinhas vivas e já preparadas. Cada família fazia seus doces e cocadas para vender”. Nesse cenário vivo e pulsante, o ir e vir dos feirantes e fregueses compunha uma espécie de coreografia diária, feita de encontros, histórias e reconhecimentos.

 

Padroeira: Mas é diante da igreja que a narrativa muda de tom. A matriz, hoje no centro da cidade, começou com um barracão de lona erguido onde antes havia apenas um cruzeiro. Segundo Neyde, as primeiras missas aconteciam nas casas dos fazendeiros, porque não existia padre residente em Uruçuca. “O padre vinha de Ilhéus com muita dificuldade. Ia a cavalo até Banco do Pedro, depois seguia pelo Rio do Braço e assim fazia seu percurso”, conta.

A devoção e parte das lembranças sobre a origem da igreja chegaram até Neyde pelas histórias contadas pela mãe. Segundo ela, antes da chegada da representação de Nossa Senhora da Conceição, o barracão onde aconteciam as missas abrigava apenas o Sagrado Coração de Jesus. “A imagem havia sido trazida por professoras vindas da Bahia, como era conhecida, à época, a cidade de Salvador, que chegaram à região para educar os filhos dos coronéis do cacau. Ligadas ao Apostolado da Oração, elas tiveram papel fundamental no fortalecimento da tradição católica que começava a se consolidar em Uruçuca”.

 

Foi nesse cenário que nasceu a ideia de trazer uma padroeira para a comunidade. A lembrança, segundo Neyde, atravessou gerações dentro de casa. “Minha mãe dizia que precisávamos de uma mãe para a igreja”, recorda. A responsabilidade pela encomenda ficou com a esposa de um coronel ligado à Fazenda Independência, tradicional propriedade da região. “Em uma viagem a Salvador, ela adquiriu a efígie de Nossa Senhora da Conceição e a levou para Uruçuca”. Neyde situa o episódio entre 1916, período em que a chegada da estrada de ferro começava a alterar a dinâmica econômica e social do sul da Bahia.

 

A chegada da santa movimentou a cidade. “O povo foi esperar na estação”, conta. “Mas ela não foi direto para a igreja. Primeiro ficou na fazenda, porque naquela época os fazendeiros tinham quartos dedicados aos santos”. Dias depois, a cidade acompanhou a procissão que levou a imagem até o barracão. A lembrança permanece intacta na memória da professora. “Quando chegou, as mulheres disseram: ‘agora nós temos uma mãe para a igreja’. E essa mãe era Nossa Senhora da Conceição”, disse, entusiasmada.

Recinto sagrado: A construção definitiva da matriz viria depois, carregada literalmente nos ombros da população. Neyde conta que moradores retiravam pedras da região para erguer os alicerces. “O próprio povo carregava pedra na cabeça. Faziam procissão levando material para construir a igreja”. A torre, segundo ela, só seria concluída anos mais tarde, já durante sua juventude, sob a liderança do padre Agostinho. O sacerdote mobilizava a comunidade até com músicas improvisadas para arrecadar recursos. Neyde ainda lembra parte da canção: “Na rua Vital Soares, tem uma grande construção, é uma igreja, nossa casa de oração” cantarola.

 

A história oral preservada pela devota se conecta ao próprio processo de ocupação do sul baiano, marcado pela expansão das fazendas de cacau e pela influência da religiosidade católica nas primeiras comunidades rurais. Em diversas cidades brasileiras, igrejas dedicadas a Nossa Senhora da Conceição surgiram inicialmente como pequenas capelas ou barracões comunitários antes de se tornarem matrizes consolidadas. Em Uruçuca, porém, a memória da igreja não está apenas nos documentos. Está na fala de uma mulher que viu a cidade trocar os jardins pelas ruas asfaltadas, o rio limpo pelo esgoto urbano e a feira ruidosa pelo silêncio dos supermercados. Mesmo assim, Neyde mantém o hábito que atravessou nove décadas. “Não perco a missa de domingo”.

 

Pároco: À frente da Paróquia de Uruçuca desde o início de 2024, o padre Irismar Silva Moraes, de 47 anos, natural de Ilhéus, soma 18 anos de sacerdócio e uma trajetória marcada pela atuação em diversas comunidades da região. “Sou responsável por Serra Grande e também acompanho as comunidades de Castelo Novo, Banco Central e Banco do Pedro. Embora algumas pertençam a outro município, a proximidade com Uruçuca faz com que eu as atenda. Em Serra Grande, celebro missas todos os sábados”, explica.

 

Ao falar sobre a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, o pároco destaca que sua história acompanha o desenvolvimento de Uruçuca. Segundo ele, o templo foi construído por volta de 1923 e passou por sucessivas ampliações para atender ao crescimento da comunidade católica. Hoje, sua imponência é reconhecida inclusive pelo bispo diocesano. “Atualmente, a igreja é considerada um local que se assemelha a uma catedral”, afirma.

 

A escolha de Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Uruçuca nasceu da tradição religiosa da época e da forte devoção popular. “A devoção a Nossa Senhora é especialmente intensa entre os católicos, em virtude de sua importância como mãe de Jesus”, destaca. O sacerdote deixa uma mensagem que ultrapassa as fronteiras da religião. “Independentemente da fé de cada um, é fundamental que vivenciemos o amor. Ao fazê-lo, promoveremos a paz entre nós, especialmente no âmbito familiar. Diante de tantos desafios que a sociedade enfrenta, é essencial retomarmos o contato com nosso interior e buscarmos o melhor de nós mesmos”.

 

Entre as transformações da cidade e o fortalecimento da fé ao longo das décadas, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição permanece como um dos principais símbolos da identidade religiosa e cultural de Uruçuca.

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